CAP. 1

São Paulo, Junho de 2010.

Fim de tarde; acima de uma lagoa imunda espelhada pelo sol, na marquise de um prédio abandonado. Uma felina borralheira e langorosa observava os arranha-céus do outro lado da ponte. Sentada em uma rachadura no concreto com pernas esticadas no beiral e as costas apoiadas em uma lasca de parede quebrada ela mexia impaciente entre as pedrinhas, tentando esmagar uma formiga que se movimentava ligeira entre as migalhas do biscoito que ela acabara de comer. A pontas dos seus dedos impacientes pressionavam as pedras ali, aqui, por entre os cacos, farpas, até ouvir o estalar baixo da formiga finalmente capturada. Ela levantou e olhou ao longe. 
Seus olhos pretos, lustrosos como petróleo. O céu azul muito claro, quase branco, com as bordas rosa aguado. Ouvia-se o zumbido do tráfego ao fundo, uma cinere estridente muito próxima e o calor condensava tudo em uma pressão insistente na mente. Mesmo ali em sua contemplação não se sentia confortável, acordara com a sensação de que algo estava errado, e tinha a impressão de que não passaria. Andou de um lado a outro do beiral, apalpou o jeans, pegou a carteira de cigarros e isqueiro, sentou ereta, as pernas penduradas no beiral. Sentindo-as como pêndulos no ar, em direção à água, visualizou-se caindo. Uma percepção natural do perigo.  
Ela olhou para baixo, e viu outra vez. Estava a vinte metros acima da água. Imaginar a sensação da queda lhe fez erguer uma sobrancelha, um gelo percorrer o corpo e o coração. Acendeu o cigarro, deu o primeiro trago, devagar, saboreando. Ergueu o olhar para o limite da água, a extremidade oposta da ponte, o centro da cidade ao longe. Soprou um ar quente que esvoaçou seu cabelo, ela deu outro trago no cigarro, e se jogou. 
A camisa larga inflou e os pés feriram a superfície da água fria, ela afundou mais de um metro em um estalo de pressão que golpeou seu peito tirando seu fôlego, sua audição e visão.  Ela foi empurrada de volta para cima, os braços rasgaram a água, e a voz a garganta,  

e a sua mente ficou em silêncio. 

Comentários