Um capítulo mais adiante... "Ela perdeu o controle de novo..."
Vou à casa de Edgard para tomar banho e me trocar. Visto o short jeans 2, a camisa da Joy Division, enfio os pés nas botas. Kim está na sala falando ao telefone e acena pra mim quando passo. Subo na moto, essa parte é divertida, trepar na moto. Me enche de um puta orgulho e vaidade. Especialmente quando ligo o motor e dou a partida.
Atravesso o terreno e saio pelo portão sem ver ninguém, ao invés de passar pela mesma rua da frente viro à esquerda, sem saber onde vai dar. O muro do Ferro Velho continua por alguns metros adiante, passo por casas, o asfalto é ruim, mato cresce pelas rachaduras. A moto sacode igual um cavalo. Estou indo em busca de sensações, quero ver coisas, sentir adrenalina.
Giro o punho no acelerador e corto a cidade sem prestar atenção ao redor, focada à frente. O vento escorre pela minha pele, meu cabelo é puxado para trás com violência. Sinto a vibração constante do motor me penetrar, e entro numa névoa hipnótica e distante.
Eu saio do meu corpo, as mãos erguidas segurando o guidão ficam e eu me afasto do meu corpo. Pra trás. Com o vento. É muito louco, não usei droga nenhuma dessa vez, mas estou doidona, tão alta pairando sobre a paisagem e a porra toda. O impulso que me arremessa a frente entorna o sangue dentro da minha cabeça, vaza pelos olhos e escorre pelos meus dedos. Dedos no acelerador.
A escuridão me envolve, não há luar, não há estrelas, postes de luz só a cada vários metros, tudo o que vejo é o céu negro sem fim, a estrada sem limites. O vento raspa nos meus olhos, lacrimejo, pestanejo, mas não reduzo a velocidade. Como asfalto estrada adentro! As montanhas são sombras gigantes, me observando com seus olhos de plumas negras. O estrondo do motor ressoa na noite, mas ouço o sussurro no fundo do meu crânio, desejos estranhos. E então, um manto morno pousa sobre meus ombros. Desejos estranhos. O gosto na minha boca, a sensação no meu peito, dentro da minha cabeça a excitação é impulsiva, metálica, agridoce, amarga, barulhenta, silenciosa, violenta.
Fico nessa onda por vários quilômetros. E de repente reduzo. Num estalo. Algumas casas começam a surgir na beira da estrada, as janelas acesas, cachorros latem, avisto um posto de gasolina a uns cem metros.
Fico nessa onda por vários quilômetros. E de repente reduzo. Num estalo. Algumas casas começam a surgir na beira da estrada, as janelas acesas, cachorros latem, avisto um posto de gasolina a uns cem metros.
Os frentistas me encaram com cara de idiotas, desço da moto, faço sinal para o que está mais perto. Dou as costas e viro para o horizonte roxo, do outro lado da estrada, há vários quilômetros, embaçado por uma neblina fria, as luzes borradas da cidade vizinha. Fico um tempo parada encarando o céu, meu sangue pulsando na cabeça. Sinto o ar gelado, o cheiro de gasolina, serração, mato e poeira.
Vou em direção aos banheiros, dou uma mijada. Minha mente coça, no espelho meu olhar é venenoso. A adrenalina me dá fome de violência, tenho consciência disso, sinto a peçonha dentro de mim. Preciso arranjar algo pra fazer.
Quando saio um cara está fumando encostado na grade que divide o pátio do estacionamento com os banheiros. Ele me olha de cima a baixo e sorri. Eu olho de cima pra ele e passo direto, mas a cara encardida de idiota dele continua na minha mente. De repente meu sangue esquenta. Do centro da minha cabeça, descendo pelos meus braços e atravessando meu corpo a raiva me toma. Meu andar interrompe igual lata enferrujada, enquanto eu tento, só por um segundo, não ceder. O calor explode pelos meus olhos, dou meia volta, com prazer perverso eu abro um sorriso.
Eu tenho que fazer, não posso ficar na vontade.
Há uma pilha de engradados de água e cerveja ao longo da grande, eu ando até um ponto fora de vista do estacionamento, o atraio para perto com o olhar fixo no dele. Ele é mais alto que eu, magro mas com algum músculo, mas isso não importa. A força que sinto queimar no meu peito é forte pra caralho, e eu avanço.
A língua dele umedece os lábios, um braço cruzado no peito e outro dobrado segurando o cigarro perto da cara. Não entendo o que ele fala, só me aproximo a passos largos, jogo a perna pro alto e taco um chute na cara dele. O olhar irritante, a cara presunçosa idiota se contorce igual um cu, ele cambaleia pra trás e cai sentado. Eu avanço de punhos fechados e dou um monte de porrada, sem chance de reagir pro babaca, meus anéis contra seus ossos, e a raiva vertente sob minha pele, tenho vontade de urrar enquanto meu peito pega fogo e meu punho soca o cara, mas isso chamaria atenção, então trinco os dentes e bato com mais força, mais rápido, insana, o sangue escorre e espirra, sujando minhas mãos.
Meu coração lateja desvairado!
O cara consegue segurar no meu pulso e tenta me empurrar, sacudo o braço e o jogo pra parede, a cabeça dele bate forte contra o cimento, o barulho me agrada, eu sorrio, olho ao redor, correndo os olhos envenenados pelo estacionamento.
— Filha da puta! Filha da puta!! O cara tenta levantar, eu me viro pra cair fora mas ele se joga e me agarra pela perna, eu me desequilibro e caio. Ele parte pra cima, eu levo um puta soco na cara, o filho da puta agarra meu cabelo e me estapeia, tomar no cú, puxo o canivete preso no meu cinto e enfio na barriga dele, ele grita, droga, filho da puta, filho da puta, cala a boca, o sangue escorre, espirra e suja o chão e me ensopa, o cara rola para o lado, filha da puta, desgraçada, socorro! Levanto rápido, olho pras minhas mãos e braços vermelhos, olho ao redor, o coração batendo forte, passo as mãos nas manchas das pernas, no rosto, corro pro banheiro, me limpo o máximo que posso, a estampa de Unknown Pleasures não quer ficar branca de novo. Me apoio na pia do banheiro e caio na gargalhada.
No pátio, o cara ainda está no chão, desmaiado, morto, sei lá. Ando tranquilamente até minha moto, só um carro reabastecendo, o motorista fora de vista, ninguém além dos frentistas.
— Aí, toma. — Dou umas notas amassadas pra um deles, subo na moto e arranco.
Mudo de marcha e acelero até estar bem longe, na estrada em outra direção, sem saber pra onde estou indo. Minha cabeça ainda queima, minha cara e meu corpo inteiro estão pegando fogo. As veias das minhas têmporas latejam como tambores. O meu fluxo sanguíneo está intenso e ardente, estou eletrizada! Um sorriso na cara, fogo nos olhos e dedo no acelerador.
Há uma infestação de cenas na minha mente, eu não consigo tirar essas coisas da minha cabeça. Paro a moto no acostamento, rodeada por árvores e montanhas distantes, acendo um baseado. A única vez em que me sinto satisfeita é quando estou em fuga... Há sangue nos meus dedos. Fumo a erva, encarando a estrada escura deserta. Fui imprudente pra cacete, em um posto de gasolina. Não esquento muito porque estrada tem muitas curvas e minha moto não tem placa. Fugi e não serei pega. Mas não posso dar mole desse jeito outra vez, não quero ser presa, porra. Por isso vim pra cá, pra dar um tempo. Ha-ha, mas eu não aguento. Fecho os olhos, cenas inflamadas ofuscam minha mente, não consigo tirar essas coisas a minha cabeça. Dou outro puxo forte no fumo, abro os olhos voltados à frente, na brisa. Apago e guardo a baga no bolso do short. Estou revigorada.
Passo a perna sobre a moto e sigo pela estrada sem saber onde ela vai dar, alguns quilômetros à frente uma placa indica o retorno para a cidade Pedras de Fogo, entro na curva. Depois de um tempo ouço o som de outros motores. Uma procissão de uns quinze motoqueiros entra na minha estrada, vindo de um cruzamento. São todos homens vestindo coletes de couro de algum clube, alinhados em formação. Dividimos a estrada, alguns deles passam por mim com a cabeça erguida e olhos fixos à frente, outros viram e fazem um cumprimento respeitoso com a cabeça, dois deles me dão um sorriso safado. Minha visão está um pouco instável por causa do baseado, eu aceno de leve com a cabeça e olho pra frente. Continuamos lado a lado por alguns quilômetros, um estrondo coletivo enchendo o ar. Aprecio o som, trovejando potente e constante, uma gota de luxúria na ponta da minha língua.
Ao passar por outro cruzamento um deles, o primeiro da fila de motos, faz um gesto com a mão, todos se afunilam, eu reduzo um pouco e o trem passa por mim virando a curva na estrada. Eu sigo em frente.
Contorno o posto de gasolina da Avenida 5 onde marquei com Lue e Jean, não tenho relógio, não faço ideia de que horas são. Há uma picape verde-escuro parada na esquina, o som do motor me anuncia e não preciso procurar muito. A cabeça de Lue aparece na janela do carona. — E aí, LuAnn! — Grita acenando.
Contorno o posto de gasolina da Avenida 5 onde marquei com Lue e Jean, não tenho relógio, não faço ideia de que horas são. Há uma picape verde-escuro parada na esquina, o som do motor me anuncia e não preciso procurar muito. A cabeça de Lue aparece na janela do carona. — E aí, LuAnn! — Grita acenando.
Dirijo até eles e paro ao lado da janela. — E aí, me atrasei? — Sorrio e olho de Lue para o interior da picape, Jean ao lado dele e William no volante.
Vamos pro outro lado da cidade, os quarteirões de bares, puteiros, boates e estacionamentos ermos. O tipo de lugar que gente de família não vai, que as meninas e os meninos são proibidos e muitos frequentam na surdina.
O bar é mal iluminado, faço uma inspeção rápida, porém atenta, olho cada rosto, em cada mesa, até mesmo as do fundo. O local tem um número considerável de pessoas, de velhos a novos, ambiente tranquilo, o bom rock tocando ao fundo.
— Tem duas mesas de sinuca livres lá atrás. — Digo.
Jean olha pra mim e sorri. — Nós dois contra eles. — Pisca um olho.
Ergo uma sobrancelha — Já é. William pede a cerva pra gente?
Lue, Jean e eu vamos pro fundo do bar enquanto William vai até o balcão fazer o pedido. Jogamos várias partidas e não saímos do empate, cinco a cinco. A essa altura já bebemos pra cacete e rolam apostas ao nosso redor. Todos jogam muito bem, e eu flerto com os três. Eles acham que faz parte da brincadeira, e faz, mas é sério. Eles ficam confusos.
A cada bola que Jean e eu sacamos eu comemoro hora dançando, hora esnobando. O ar é quente, abafado e úmido de cerveja, uma sauna de nicotina como todo bar que se preze. Entre as pessoas que se juntaram a nós, duas garotas estão de olho em William, o mais velho e forte dos três. Vaquinhas ridículas, tentam chamar atenção mas não conseguem, não só os três como os outros caras estão ligados em mim.
— Porra, tá difícil arranjar uma grana! — Um velho barbudo exclama. — Ninguém ganha, ninguém perde, tô contando com essa grana pra pagar o bar! HAHA!
— Tá fodido, coroa. — Lue diz rindo. Todo mundo ri também.
— Essa e mais uma! — William dá um gole na cerveja, apoiado no taco enquanto assistimos Jean encaçapar a verde e a azul. A gente perde essa e a seguinte, por fim William e Lue vencem no desempate.
Perco quinhentos reais. Pra comemorar coloco Joy Division na Jukebox e chamo os garotos pra dançar.
“Confusion in her eyes that says it all.
She's lost control.
And she's clinging to the nearest passer by,
She's lost control.
And she gave away the secrets of her past,
And said I've lost control again,
And a voice that told her when and where to act,
She said I've lost control again.
And she turned around and took me by the hand and said,
I've lost control again.
And how I'll never know just why or understand,
She said I've lost control again.”
Tá todo mundo bem bêbado, dançando, e eu vejo tudo girar, me chacoalhando e rodando, entregue à música. Cenas violentas, sexuais, de velocidade e de queda queimam sob minhas pálpebras, eu giro, pulo, giro e giro, não consigo tirar essas coisas da minha cabeça. Em meio a música, ouço meu riso.
“Well I had to 'phone her friend to state my case,
And say she's lost control again.
And she showed up all the errors and mistakes,
And said I've lost control again.
But she expressed herself in many different ways,
Until she lost control again.
And walked upon the edge of no escape,
And laughed I've lost control.
She's lost control again.
She's lost control.
She's lost control again.
She's lost control.”
Está tudo embaçado e eu vou flutuando até o banheiro, tenho algo pendente. Um coroa gostoso da mesa de bilhar do lado da nossa. Está me secando desde a hora que eu entrei. Entro no cubículo fedido e dou uma mijada, quando saio ele está ali parado. Grande. Cabelo cinza bem penteado, cavanhaque e colete de couro.
Deixo meu short com o zíper aberto cair aos meus pés e dou um passo atrás, de volta ao cubículo. Ele entra e me pega, eu bato com a cabeça dele na parede e desço os dedos pro botão da sua calça. O coroa me vira de costas pra ele, eu fecho meus olhos e sinto. Profundo. Quente. Forte. Eu vejo sangue e abro meus olhos! Meu rosto e meus olhos estão quentes, e eu os fecho de novo. E sinto. E derreto.
Quando acaba, o que não demora muito pra acontecer, explosivo e intenso, o cara me segura nele. Eu me solto, levanto o short, me viro e olho nos olhos dele.
— Riders on the storm. Riders on the storm. — Canto, The Doors, em um sussurro. — Into this house we're born. Into this world we're thrown... Saindo pela porta.
A música continuava do lado de fora, e LuAnn voltou a dançar. Sentado ao balcão, William a observou. A entrega dela é total, ela dança de um jeito estranho, com o corpo completamente solto, e os olhos fora de órbita… Tocava Elvis mas ela continuava balbuciando: She's lost control again. She's lost control. She's lost control again. Ela o segurou pelo pulso. — She’s lost control again.
Comentários
Postar um comentário