Capítulo 1
1
Fim de tarde, acima de um rio espelhado pelo sol, na marquise de um prédio abandonado. Sentada entre uma rachadura no concreto, com pernas esticadas no beiral e as costas confortavelmente apoiadas em uma lasca de parede quebrada. Uma mão pousada sobre a barriga, subindo e descendo devagar em sua respiração tranquila, a outra mexendo nas pedras e lascas de tijolos. Uma felina borralheira, astuta e langorosa a observar os arranha-céus do outro lado da ponte.
Seus olhos são pretos, lustrosos como petróleo. Os lábios usualmente comprimidos em um cigarro raramente se abrem em um sorriso. O ar soturno e firme não revela seu poço de ideias, sentimentos e desejos, tão profundos e impenetráveis. Intrigante em seu andar cadenciado e confiante, em seu olhar deslizante nas órbitas que fixam no objeto de seu foco e o marca em um segundo mais que brasa no gado.
O céu estava azul muito claro, quase branco, com as bordas rosa aguado. Ouvia-se o zumbido do tráfego ao fundo e no primeiro plano o silêncio era absoluto. Mesmo ali em sua contemplação não se sentia confortável, acordara com a sensação de que algo estava errado, e tinha a impressão de que não passaria.
Ela apalpou o jeans, pegou a carteira de cigarros e isqueiro. Desencostou da parede quebrada e sentou ereta, as pernas penduradas no beiral. Sentindo-as como pêndulos no ar, em direção à água, visualizou-se caindo no rio. Uma percepção natural do perigo. Ela olhou para baixo, e viu outra vez. Estava dez metros acima da água. Imaginar a sensação da queda lhe fez erguer uma sobrancelha, um gelo percorrer o corpo e o coração. Acendeu o cigarro, deu o primeiro trago, devagar, saboreando. Ergueu o olhar para o limite da água, a extremidade oposta da ponte, o centro da cidade ao longe. Soprou um ar quente que esvoaçou seu cabelo, ela deu outro trago no cigarro, e se jogou.
A camisa larga inflou e os pés feriram a superfície da água fria, ela afundou mais de dois metros em um estampido de pressão que golpeou seu peito tirando seu fôlego, sua audição e visão. Ela foi empurrada de volta para cima, e sua mente era silêncio.
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