Capítulo 2

2

LuAnn não era como todas as outras. Elas são finas nas palavras, são doces nos modos, buscam agradar.
Pegadas molhadas no asfalto até uma banca de jornal. O homem de cabelo grisalho jogou um olhar esgarçado para ela, LuAnn parou no primeiro degrau, a franja repicada úmida caindo nos olhos, os mamilos eriçados sob a camisa molhada e a tatuagem no seio muito aparente.
— Um cigarro. — Ela fez um gesto com a cabeça, colocando uma moeda sobre o balcão. O homem puxou um Camel do maço, LuAnn saiu acendendo o cigarro com seu zippo prateado.
As pessoas que passavam por ela a olhavam com ar hostil, mas para LuAnn a rua estava vazia, os carros eram parte da natureza de concreto, existia apenas o ar soprando em seu rosto com o caminhar, a fumaça saborosa do cigarro e silêncio.
Era próximo das quatro da tarde, a luz escapava em diagonal entre os prédios. Depois de alguns quarteirões LuAnn virou uma esquina para a esquerda, um grupo de jovens da sua idade jogava basquete na quadra nos fundos de um dos prédios. Ali era um dos pontos de encontro dos adolescentes do bairro, mas de um grupo específico. LuAnn atravessou a rua e parou na grade da arquibancada. Eram seus vizinhos, colegas de escola, notaram logo sua presença.
— Lu! LuAnn vem pra cá! — Uma garota a chamou. Pele morena azeitonada, cabelo preto alisado aos ombros, vestida com top cor-de-abóbora e saia jeans; Lavínia. Ela estava recostada em uma das estacas de ferro do portão na extremidade esquerda da quadra.
LuAnn sentiu o rosto se modificar com uma expressão de preguiça e má vontade, demorou-se segurando na tela de arame e então contornou a quadra até o portão.
— E aí? — Falou quando chegou perto. Geralmente LuAnn falava assim: em tom moderado para baixo, lento, a voz firme e pesada. Seu olhar em sintonia com o falar, o mesmo matiz.
Seu ar aparentava serenidade imperturbável e ao mesmo tempo reflexão intrincada.  LuAnn não era inquieta e preocupada em ser algum tipo de garota. Suas colegas percebiam, e isso as incomodava. Ficavam intrigadas e fascinadas com o jeito dela. Elas a queriam entender, a fazer falar, mas LuAnn era muito distante e alheia. Não era uma delas. Sua aura era densa e resoluta, LuAnn era muito voltada para si.
Outras duas garotas completavam o círculo: Karen, uma loira de olhos pálidos e Carol, negra de cabelo escovado, vestiam o mesmo tipo de roupa.
— O que aconteceu? — Lavínia examinou LuAnn por inteiro.
— Nadando um pouco.
Lavínia decidiu não comentar. — Foram comprar bebida, vamos pro cais. Vai chegar lá?
LuAnn deu uns passos para trás e sentou no banco mais baixo da arquibancada, as pernas separadas, cotovelos apoiados nos joelhos.
— Devo ir…
Estava mais distante que o normal, podia sentir que sua expressão estava muito compenetrada, o olhar intenso longínquo. Geralmente ela que começava a bagunça, a bebedeira, a gritaria, a arruaça.
— Lucas vai! — Carol sorriu com malícia, os olhos brilhantes com expectativa de que LuAnn acendesse em excitação. As outras meninas acenderam, todas sorrisos maldosos.
— Maurício também... Hmm! — Lavínia mexeu o quadril ao gesticular as mãos. A menção aos garotos deviam incentivar LuAnn em ir à reunião a beira do rio, um aterro ermo, como incentivava as outras, mas ela não esboçou reação.
LuAnn adorava homens, mas não corria atrás deles e não dava esse tipo de moral a ninguém. Em resposta apenas levantou um pouco as sobrancelhas, um sorriso de lado rápido achando graça delas. As garotas emendaram outros comentários e LuAnn se desligou da conversa. Enquanto estava ali assistindo ao jogo sua roupa e cabelo secaram, o céu escureceu. O grupo que foi comprar bebidas voltou com as mochilas cheias. O pessoal que jogava, incluindo Josh, o garoto com quem LuAnn ficava, se juntaram. Ela levantou e saiu, pensando em como aquilo era superficial.
Um circo, eles eram os palhaços sujos de purpurina fazendo piruetas extravagantes e chamando atenção. A maioria deles só estava ali porque o outro estava. Em poucos anos essa fase acabaria. Mas para LuAnn não era curiosidade pueril, não era apenas vontade de se divertir. LuAnn sentia uma fome imensa, um instinto incontrolável e ela sabia que não passaria.
A noite chegara e ela tinha que trabalhar, era balconista e garçonete no Fliper, um bar ali do bairro. Quando chegou em casa a mãe estava na cozinha, subiu direto para o quarto que dividia com a irmãs mais nova, Leslie.
— Oi, Lili. — LuAnn puxou um cacho louro dela ao passar pela cama em direção ao banheiro. Tirou logo a roupa e entrou debaixo do chuveiro.
Leslie viu apenas o seu vulto. — Oi, Lu. — Olhou por cima do ombro e a porta do banheiro foi fechada. Estava de bruços na cama, assistia televisão, uma novela canadense.
No banheiro, sozinha com seus pensamentos, LuAnn sentiu a impressão de estranheza acentuar. Normalmente ela convivia com um sentimento de desconforto e insatisfação, desde sempre, mas hoje entendia isso como um agouro. Fechou os olhos e se concentrou no barulho da água. Entendeu então que havia chegado a hora.
Quando saiu Leslie estava na mesma posição. O quarto estava escuro, a iluminação da TV oscilava com as cenas , LuAnn voltou ao banheiro e acendeu a luz, deixou a porta aberta para clarear o quarto.
— Pode acender a luz. — Disse Leslie.
— Hm, não. A lâmpada queimou.
— Ah.
LuAnn foi ao guarda-roupa, vestiu uma calça jeans justa de cós baixo e uma camisa cinza. Enfiou os sapatos pretos nos pés e amarrou os cadarços apertados. Não percebeu o olhar observador da irmã, penteou o cabelo, passou batom marrom escuro e delineou os olhos de preto. A maquiagem acentuou sua expressão bonita e acrescentou mais austeridade.
— Se lembrar, compra uma lâmpada nova, então. — Leslie agora estava sentada de frente para ela.
LuAnn assentiu. — Vou trazer algum chocolate também.
Leslie sorriu e virou o rosto para a televisão.
— Leslie, separou a roupa suja? — A mãe delas, Sara, abriu a porta do quarto, segurava um cesto apoiado no quadril. — Pega logo pra eu lavar tudo de uma vez. Você tem alguma coisa, LuAnn?
Leslie levantou da cama e pegou as roupas embrulhadas em um lençol no canto do quarto. LuAnn olhou em volta, catou algumas peças, foi ao banheiro e voltou com um emaranhado. As duas colocaram as roupas imprensadas no cesto que a mãe carregava.
LuAnn acompanhou Sara. — Quer alguma coisa do mercado? — Fechou a porta atrás de si, as duas se olharam. — A lâmpada do quarto queimou, vou passar no mercado quando voltar.
Sara desviou o rosto, começando a descer a escada. — Tem algumas coisas. Vou pegar um pedaço de papel e anotar. Você já está saindo?
— Ainda tenho alguns minutos.
Sara atravessou a sala em direção à cozinha, pegou um bloquinho de ímã na porta da geladeira e a caneta que ficava pendurada no mesmo. LuAnn recostou no peitoril da janela e olhou para fora, a rua de trás estava vazia, ao longe, além dos prédios, podia ver as luzes dos automóveis na ponte.
Sara vestia calça de algodão azul-claro e blusa bege de mangas franzidas. Era alta, trinta e seis anos, cabelo cor de mel no cumprimento do busto, corpo em forma. Melhor seria se parecesse mais velha do que era, porque Sara aparentava ter a idade que tinha mas seu olhar azul pálido trazia um ar cansado. Uma dor com a qual convivia todos os dias, aplacada por uma força obstinada.
LuAnn sempre foi muito observadora, e cresceu testemunhando as matizes de sua mãe.  Observou Sara escrever no bloquinho, abrindo e fechando as portas do armário e olhando em volta. LuAnn a amava, mas elas discordavam tanto que sempre havia um ar ressentido e reprovador entre as duas. Ela podia ver a habitual tensão nos ombros de Sara, agora especialmente, quando LuAnn saia para trabalhar no bar. Sua mãe reprovava tudo naquele lugar.
— Aqui, eu acho que é só isso. — Sara lhe estendeu o papel. — Tem dinheiro suficiente?
— Claro, mãe.
— OK, então. — Sara passou as palmas das mãos na calça e pegou o cesto de roupas. Ela foi para os fundos da casa e LuAnn saiu pela porta da frente.
Dava para ouvir o murmúrio das televisões ligadas, a noite estava tranquila na vizinhança, nenhum grupo reunido nas calçadas ou becos ouvindo música alta ou bebendo, nenhuma crianças brincando na rua, elas estavam em casa, de banho tomado e esperando o jantar. Como LuAnn fazia há alguns anos.
O ar fresco da noite e a escuridão a envolveram como um manto e se ajustou nela como uma peça feita sob medida. A cada passo que LuAnn dava para longe do calor de casa, em direção ao seio da noite, mais se sentia confortável. Mais ela mesma. Seu caminhar firme emitia som surdo e seco no asfalto, andou cadenciadamente por cinco quarteirões até o beco onde despontava dois letreiros neon: FLIPER, FECHADO.
LuAnn virou a direita e entrou no cubículo escuro entre dois prédios, alguns passos a frente atravessou a porta do bar. O ambiente aquecido tinha cheiro de cigarro, cerveja impregnada nos móveis e desinfetante, este último logo desapareceria entre os outros. Parte das cadeiras estavam com as pernas para o ar sobre as mesas, um dos barmen limpava o chão.
— E ai, Lee!
Um cara oriental magro na casa dos trinta ergueu o olhar. — Ei, LuAnn.
LuAnn puxou um cigarro e o acendeu com o zippo prateado, em silêncio começou a trabalhar. Colocou as cadeiras no lugar onde Lee já limpara, lavou, secou e arrumou os copos no balcão. Pegou as bebidas que faltavam no porão e organizou nas prateleiras, limpou os cinzeiros nas mesas. Enquanto Lee limpava o banheiro masculino, ela foi para o feminino. Essa era a rotina, o bar abria às 20hrs, LuAnn chegava uma hora antes, ajudava nos preparativos finais, se postava atrás do balcão e Lee mudava o letreiro de fechado para aberto.
Os clientes eram os mesmos de sempre, mas isso não significava que LuAnn tivesse algum tipo de familiaridade com alguém, não tinha. Ela foi até às mesas e pegou os pedidos, os serviu e voltou para trás do balcão. Pouco depois de aberto, entraram três homens negros vestindo moletons e bonés, joias e tênis de marca. Eles atravessaram o salão e tomaram uma mesa ao fundo, perto da sala de Douglas, o dono do bar. Mais tarde Douglas sentaria junto a eles, para tratar de negócios.
LuAnn pegou a caneta do bolso da calça e foi até o trio. Enquanto ela cruzava o salão os imaginou pelados com ela na cama. Eram bonitos, másculos e altos, a pele parecia quente.
— E ai? — Ela parou em frente a mesa. Eles olharam para ela no mesmo instante e LuAnn mordeu a língua.
— Fala, gata. Beleza? — Um deles ergueu queixo, ele parecia ser o mais velho, o olhar duro e lascivo.
LuAnn puxou um pouco a boca para o lado num sorriso mínimo.
— Manda uma rodada de whisky pra gente. — O mesmo cara falou. Ele tinha os olhos um pouco puxados e os lábios carnudos bem desenhados. LuAnn tomou nota.
Duas garotas brancas se aproximaram e sentaram a mesa. — E vocês, vão de margarita? — LuAnn olhou para elas.
— Coquetel. — Disseram. LuAnn anotou e virou as costas.
Lee ligou a jukebox e colocou blues para tocar, LuAnn preparou a rodada de whisky na bandeja e acrescentou três charutos, cortesia da casa, ordem de Douglas. E a noite avançou, envolvida pela música, pelo cheiro de cigarro e álcool, o calor confortável e o tilintar de copos. LuAnn ouviu as conversas sobre as coisas que aconteciam na cidade. Mortes, assaltos, prisões, traições, acidentes, festas. Naturalmente alguns clientes a alugavam com relatos e desabafos, LuAnn sentava na pia no interior do balcão ou recostava nele, acendia um cigarro e às vezes ouvia atentamente. Ela não se importava, dava opinião de maneira curta e grossa e fazia comentários sarcásticos só de maldade.
Às quartas e sextas-feiras subia no pé-direito baixo no canto do salão e cantava. Quatro músicas por noite, trezentos a mais no bolso.  Ela gostava de Joy Division, Led Zeppelin, The Doors, The Runaways e The Clash. Sua voz não era grande coisa, não desafinava, cantava desleixadamente, mas com firmeza e estranheza boa de ouvir.
Um cara sentado a uma mesa no canto perto da porta a encarava. Era branco, vestia jaqueta de couro preto, tinha o corte de cabelo militar, o  rosto bonito muito sério. LuAnn colocou o microfone de volta sobre uma das caixas de som e voltou para trás do balcão, sentou sobre o freezer e acendeu um cigarro. Observou todo o salão, e percebeu o olhar dele. Os dois se encararam, durou minutos, eram ambos obstinados. Só pararam porque uma mulher se meteu na frente do balcão e pediu um cigarro. LuAnn a atendeu e depois Lee a chamou para pegar garrafas de vodka no porão. Quando voltou LuAnn já havia esquecido do cara e não olhou em sua direção outra vez, mas ele voltou a observá-la.
LuAnn serviu as mesas o resto da noite, andando para lá e para cá o tempo todo. Mesmo não tendo brechas os homens não deixavam de babar e desejá-la. Por sua indiferença eles pensavam que ela não percebia, mas LuAnn tinha consciência e cagava para isso.
Ela estava muito perto de completar dezoito anos, mas não tinha aspecto de menina. Media 1,68 metro de altura, tinha quadril largo e pernas finas, seios médios. Seu cabelo era preto ondulado e comprido, rosto oval, nariz reto, boca comum, e pele muito clara. A feições de LuAnn eram harmoniosas, mas  ela as entalhara com ar de austeridade e gravidade. Sua maneira enigmática, a fisionomia insondável, dura, o andar decidido e o jeito resoluto eram fascinantes, sedutores, atraentes. E sua maneira de falar... O ritmo de sua fala era delicioso. Aparentava tranquilidade e conforto consigo mesma. Despertava desejo de se envolver nela.
No entanto, havia um monstro dentro de LuAnn, ou ela era um monstro, ainda não tinha chegado a uma conclusão, uma ganância feroz e embora seu semblante fosse equilibrado ela estava muito longe da satisfação.
Passado das duas da manhã, um grupo de caras vestindo jaqueta de couro havia se juntado ao cara de corte militar. LuAnn estava no balcão e atentou para uma mulher cambaleando em direção ao banheiro e a seguiu. A mulher estava tão bêbada e drogada que chamou pela mãe, debruçou na privada e vomitou as tripas. LuAnn deu umas palmadinhas nas costas dela, falou umas palavras de incentivo:
— Seu homem não vai querer mais beijar essa boca babenta e azeda, você está muito mal, garota. Vomite e acabe logo com isso... muito bem…
Juntou o cabelo da moça com uma mão e olhou pelo banheiro, franziu o nariz e voltou o rosto para a nuca dela, abriu o fecho do cordão de ouro e o colocou no bolso, tirou uma das argolas da orelha e então avistou a bolsa dentro da lixeira. Que porcaria, abriu o zíper, catou o dinheiro da carteira e saiu do banheiro.
Sentado ao balcão um rapaz de cabelo claro fumava e conversava com Lee, ela reconheceu pela jaqueta jeans.
—  Josh. — LuAnn murmurou e foi até ele.
— Oi. — Josh sorriu quando ela sentou ao seu lado. LuAnn fez um sinal para Lee e ele os serviu whisky.
— Esperei você aparecer lá no cais.
— Não deu pra ir, tive que trabalhar. — Ela deu um trago na bebida. — Como foi?
Josh balançou os ombros. — Vai demorar muito aqui?
— Não, mas vou ao mercado depois.
— Qual é, vim aqui pra te ver... — A enlaçou pela cintura, o rosto no pescoço dela. — Vai me deixar assim?
LuAnn se afastou e olhou nos olhos verdes dele. — Não fode, cara.
— Não, não... eu quero foder. Com você. — Beijou a boca dela e sorriu. — Eu te espero.
— Não, Josh. A gente se fala amanhã. Vai pra aula?
— Vou. — Ele virou o copo, levantou e saiu. Lee empurrou duas garrafas de cerveja pelo balcão, LuAnn as pegou e foi entregar a uma mesa.
3:15 a.m
LuAnn acabou de lavar os copos e se despediu de Lee. O bar ficaria aberto até as cinco, Lee fechava, dormia até o meio-dia e fazia sabe lá o que até a hora de começar a arrumar as coisas para reabrir. LuAnn saiu pela porta dos fundos que dava em outro beco, levando dois sacos de lixo, os jogou na caçamba. O silêncio era absoluto, percebeu o chão molhado e olhou para a luz do poste, chuviscava. Ela levou a mão aos bolsos da calça e puxou os quatro isqueiros que furtara esta noite. Ela tinha vários deles, ainda não contara quantos, todos roubados.
Acendeu um cigarro e fumou metade dele calmamente, até que ouviu uma sinfonia áspera vindo da rua da frente. Ela desencostou da parede e andou rapidamente para ver já sabendo o que era. As lanternas traseiras das motos se afastaram na noite. LuAnn recostou na quina do prédio e tragou o cigarro, olhando a dúzia de motoqueiros virarem a esquina. Sempre teve tesão por motos.
Manteve o olhar na rua até terminar o cigarro. Não esperava ouvir outro rugido, virou o rosto em direção do barulho e viu a sombra de um homem fazer o retorno. Mas ele não seguiu em frente, ele contornou a calçada e LuAnn o encarou enquanto se aproximava. Era o homem de corte militar.
Ela sabia que ele e os outros de couro faziam parte de uma organização, nunca os tinha visto mas homens como eles são comuns no bar. LuAnn ficava na dela, e sabia que ali rolavam negócios.
O homem parou a moto a sua frente e a fitou com um sorriso sugestivo. LuAnn o examinou desde as botas à calça de couro, à camisa branca, às mãos no guidom e principalmente à Harley. O olhar dele também percorreu o corpo dela, LuAnn ficou muito excitada. Se aproximou e subiu na garupa dele sem troca de palavras. O assento macio era como mãos grandes e quente segurando sua bunda, o cara acelerou noite adentro e a levou para o outro lado da ponte.
Correr era maravilhoso, avançar ferozmente, ultrapassar sinais, cruzar pistas, deixar todos para trás. As luzes da idade sempre foram interessantes para LuAnn, os pontos de luz se tornaram riscos e borrões. O motoqueiro parou em frente a uma casa de dois andares numa vizinhança de casas bonitas.
— Você mora aqui?
— Não. — Ele tirou o capacete, desceu da moto e a puxou pela mão. LuAnn não fez mais perguntas, o acompanhou janela adentro direto para um quarto de solteiro vazio.
4:59 a.m
LuAnn colocou meia dúzia de lâmpadas no carrinho. A calcinha incomodava, cruzou as pernas e torceu o nariz, estava inchada. Pegou a lista no bolso e seguiu pelos corredores. Voltou para o seu bairro de metrô e como era de se esperar às cinco da manhã, Sara estava na cozinha fazendo café.
— Mãe. — LuAnn colocou as compras sobre a mesa. Sara ligou a torradeira na tomada e colocou duas fatias de pão.
— Chegou mais tarde hoje... tão tarde que já é cedo.
LuAnn não respondeu, tirou as compras das bolsas e as guardou. Sara perguntou se ela ia à escola.
— Tô cansada.
Sara olhou diretamente para a filha, há muito tempo sabia que LuAnn faria o que quisesse e ao em vez de confrontar e reprimir seria mais sábio se a instruísse e chamasse à razão. LuAnn sempre foi muito madura para a idade e foram necessárias muitas brigas para Sara entender e aceitar que não podia fazer muita coisa. Apesar de tudo, fora a desobediência, LuAnn nunca faltara com o respeito.
Sara respirou fundo.  — Não sei o que você quer da vida, LuAnn... — Falou séria e lentamente. Na verdade, tinha alguma suspeita, ou medo, mas não se atrevia a pensar abertamente nem falar em voz alta. Não queria pôr ideias na cabeça da garota, talvez não fosse o que ela achava. Acreditava que a filha tinha jeito. — ... mas só te peço uma coisa: termine a escola.  Isso é o mínimo que eu espero de você.
Elas se encararam por um momento e Sara se voltou para o fogão. LuAnn desviou o olhar para o batente da porta e o corredor escuro em silêncio. Sentia-se cansada, não apenas fisicamente. A sensação de estranheza, de que as coisas estavam erradas permanecia.
Faltavam dois meses para a conclusão do primeiro semestre. Graças a Deus ela estava no último ano e nunca fora reprovada — por pouco. Não suportaria mais tempo na escola! Se a mãe lhe pedisse isso e ainda faltasse muito LuAnn não aguentaria, e a decepcionaria completamente. Se isso era o que ela podia fazer para compensar tudo o que não fizera ou faria, tentaria. Um dia de cada vez. Sem promessas.
— O café tá forte?
— O de sempre. — Sara falou
— Vou precisar para ficar acordada durante a aula.
Sara a olhou com olhos cerrados mas não comentou, lhe serviu café em uma caneca, Leslie desceu e elas comeram em silêncio. Sara saiu logo para o trabalho, era gerente de uma lavanderia no centro da cidade. A aula começava às 7h30, LuAnn correu para o quarto, tomou banho rápido, pegou a mochila e conseguiu acompanhar Leslie. Elas estudavam em lugares diferentes, LuAnn ainda ficou no trem por vinte minutos depois que Leslie desceu.
Não tinha vontade nenhuma, mas estava lá sentada na carteira no meio da sala de aula. Ninguém gosta de verdade da escola. Opressão, deveres e regras quando você só quer fazer sexo e se divertir. LuAnn não suportava.
  Conversou com Lavínia e outros colegas durante a maior parte das aulas, só calou a boca na aula de filosofia a qual prestou muita atenção. No intervalo do meio da manhã, fez alguns trabalhos atrasados que valiam nota, colando dos outros. Não assistiu às últimas aulas. Deitou sob uma árvore perto da quadra após o almoço e acabou dormindo. Só acordou ao toque de saída às 14h30, levantou, pegou a mochila e correu atrás dos professores para entregar as porcarias dos trabalhos que ralou tanto para fazer.
Josh, seu namorado, a encontrou no corredor e eles saíram juntos. Foram para uma praça perto de casa, outro ponto de encontro. Os outros estavam lá, eles passaram um tempo conversando, juntaram dinheiro para comprar em um Mac Donald’s ali perto. Foram para quadra atrás dos prédios, se drogaram, comeram e jogaram bola. LuAnn e Josh cambalearam na onda psicodélica até a casa dele, comeram, transaram, se drogaram, transaram, dormiram.

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