Capítulo 6

6
Blake está a cinco horas de sua cidade, pilota tranquilamente na estrada. Há poucas luzes, poucas casas, muitas árvores, ele divide o asfalto apenas com caminhões ocasionais. Vai virar a noite viajando, o barulho do seu motor é o único som.
O ponteiro marca 120, o tempo diminui, as sombras das árvores passam como vultos. O ponteiro marca 130, o vento raspa sua pele, as luzes noturnas se tornam flashes, sua mente acelera, as imagens se confundem. O ponteiro marca 160, seu coração arde, a mente se eleva de prazer. Ele está indo de encontro ao seu lugar favorito. Para a frente, com força. O ponteiro marca 200, Blake pensa em tudo e em nada. Ele vê os últimos anos de sua vida passarem por ele, ele vê apenas o presente, ele não vê nada na neblina da noite. O tempo não significa nada.
Pow!! Um estampido de tiro. Uma lembrança de estilhaços o acerta na parte direita do corpo. Em um lugar escuro, passos correndo. Blake tem repassado cenas daquela noite em sua mente, mas não consegue resgatar as lembranças na íntegra. Ele tem tido sonhos, eles o atormentam,  não sabe porquê.
    Uma lembrança mais recente toma sua visão. O caminhão de carga derrapando na pista, arranhando o asfalto e inclinando como um mamute bêbado em sua direção. Blake viu aquilo com uma onda de náusea, o caminhão tombou a centímetros de seu pneu traseiro. Ele acelerou furioso, com sangue nos olhos. Filho da puta, quem tá querendo ferrar com a gente?
Respondendo ao pensamento, Blake acelera com raiva, desafiando a capacidade de sua antiga Harley customizada, ele não sabe ou não se importa,  mas ela está no limite. Mais um pouco e o motor pára e ele é arremessado à frente. Blake está no limiar da insanidade, na sua zona favorita. Sua postura é como a de um cavaleiro das trevas, o olhar homicida cravado na estrada. E os pensamentos se esvaem, é uma paz envolta em perturbação. A mente é preenchida pelo prazer de estar nos braços da Noite. O ponteiro marca 220, Blake atravessa a madrugada e rompe o amanhecer.

O sol surgia por trás de prédios antigos e o ar estava frio, úmido de serração. Cães ainda latiam ao longe, poucos carros passavam na rua no parco movimento matutino quando Blake saiu da loja de conveniências. Bebendo achocolatado em caixa, segurava sacolas de comida penduradas em um braço e um hambúrguer na mão. Recostou em sua moto para terminar de comer, havia feito a entrega e agora estava a meia hora de casa. Pegou o celular no bolso para conferir as mensagens; “Reunião adiada pra hoje, 18 hrs. Chega a tempo?” Enviada por Fernando durante a madrugada. Blake discou o número dele.
— Fala. — Fernando atendeu com voz de sono.
— O que houve?
— Nada ainda, a gente tem que ir pra mesa discutir. Onde você tá?
— Vou chegar a tempo.
— OK.
Blake guardou o celular no bolso, terminou de comer e foi para casa. O sol já estava alto quando chegou, ele caiu na cama e dormiu.


Passado

O barulho era audível do outro lado da rua, apenas dois cômodos da casa estavam acesos, a sala e a cozinha. Certamente ela estava batendo as portas dos armários e as panelas, gritando com ele, que  na sala gritava de volta batendo nos móveis próximos. Era uma mistura de barulhos que arranhava os ouvidos e a mente, extremamente irritante.
— TUDO SOU EU NESSA CASA!! VOCÊ NÃO PODE LAVAR A DROGA DO PRATO QUE COME!!! - A voz dela estava a todo volume, rasgando a garganta.
— Eu passei o dia todo atrás de emprego! Você só sabe olhar o seu lado!
— Ah, cala a boca!! Eu tenho que te implorar pra fazer as coisas!! Não vem com essa desculpa não que eu te vi no bar quando eu cheguei!!
— E O QUE VOCÊ TEM A VER COM ISSO!?! E se eu quiser  beber uma cerveja no final do dia?! Não foi com seu dinheiro!!! Tá reclamando de que? Eu não vo… "AAAH" A mulher gritou interrompendo-o. — MEU DINHEIRO!!? Nessa casa não tem meu dinheiro!! Quer saber?! Vai se foder, Carlos!! Eu to cansada de discutir com você!  — Choro. — Tem hora que da vontade de largar tudo e ir embora!!
— Por que não vai, então?! QUE MERDA!!!
Blake ouvia a discussão enquanto enchia o pneu da bicicleta nos fundos do quintal. Ele terminou sua tarefa, as vozes cada vez mais distantes em seus ouvidos, abstraindo, recostou a bicicleta na parede e entrou em casa pela porta da cozinha. Sua mãe estava no fogão, ele pegou um pedaço de frango dormido na geladeira e foi para o quarto, passando por seu pai na sala também sem pronunciar uma palavra.
A casa tinha apenas um andar, o quarto dele ficava ao lado da sala, havia apenas um banheiro dividido por todos e o quarto do casal no fim do pequeno corredor. Blake se jogou na cama  e ficou ali deitado olhando para o teto por um tempo, acordou duas horas depois e levantou para tomar banho. Ao passar pelo corredor, ouviu seus pais transando no quarto. Seu pai estava desempregado há mais de um ano e as coisas estavam cada vez mais tensas, porém tudo acabava em sexo.
De banho tomado e roupas limpas, Blake saiu de casa pela porta dos fundos. Atravessou a rua e andou tranquilamente pela calçada  até uma casa há três quarteirões dali. Ele pulou o muro para dentro de um quintal, a porta da casa estava fechada. Ele esperou um instante, a porta entreabriu,  uma garota de cabelos cacheados espiou pela fresta e a abriu dando um sorriso ao vê-lo.

                                                              ▼

A pele castanho avermelhada brilhava de suor, um tom lindo contra o azul índigo do céu. Os olhos focados no gol, os pés posicionados, e a mente calculando o movimento que incluía fazer o gol e dar uma cotovelada dolorosa no adversário sem que parecesse intencional, mas e daí se parecesse. No final ia ter briga, sempre tinha. Blake vivia brigando com todo mundo, ele não levava desaforo para casa. Na maioria das vezes ele quem provocava, mas sempre saía como certo.
Blake era um rapaz alto para a idade, tinha os olhos e cabelos negros brilhantes e o sorriso amplo. Aos dezesseis anos passava todos os dias na rua andando de bicicleta e jogando futebol. Além disso, ele também gostava de fumar maconha, transar e praticar furtos a escola não tinha muito espaço em sua vida.
Ao dezessete suas práticas de furto se intensificaram. Desde cedo percebeu o quanto era bom em ser discreto, saindo e entrando de lugares proibidos ser visto ou pego, ele desenvolveu essa habilidade com orgulho. Era muito bom em enganar os pais para fugir de surras e responsabilidades, em cometer vandalismo e transferir a culpa para outros, em mentir e argumentar até as pessoas duvidarem das próprias palavras.
Blake competia consigo mesmo. Quantas casas e lojas conseguiria roubar em uma noite, — preferia as que tinha alarmes e cães de guarda — quantas vezes conseguiria roubar o mesmo lugar até a polícia ser acionada para fazer vigilância — o que não durava muito tempo, e não o impedia de roubar de qualquer forma. Na verdade, quanto mais difícil e desafiador, melhor.
Geralmente ele preferia andar só em suas práticas surdinas, era algo pessoal, mas às vezes um comparsa era bem vindo. Assim, Blake fez discípulos quase tão bons quanto ele.
Seu dinheiro era gasto com roupas e acessórios das melhores marcas, — era vaidoso —
maconha e bebida, da melhor qualidade também. Blake era ganancioso, ele queria tudo, ele queria muito, e pegava o que queria. Sem medo e sem remorso. Era como ele se divertia, ele se achava esperto, e ao crescer tais hábitos moldaram seu caráter e personalidade.
Aos dezoito, Blake se alistou no exército. De alguma forma passou nos exames e serviu por três anos. Ele estava sem rumo, e isso lhe pareceu uma experiência interessante — lidaria com armas e seria treinado para melhorar seus talentos.
O primeiro ano foi o mais sofrido. Ele tinha muita dificuldade em seguir rotina, em ser disciplinado, apanhou como um cachorro ladrão. No entanto, Blake era adaptável em algum nível. No final dos primeiros doze meses, ele havia aprendido muitas lições, era inteligente e perspicaz, a astúcia e precisão que usava em suas práticas de furto o ajudaram, por fim, a se tornar um soldado organizado e disciplinado.
Após o treino com armamentos em campo, Blake foi treinado para trabalhar na manutenção de máquinas. Não era o que ele preferia, mas Blake gostou, os superiores viram que ele levava jeito na área, e o encarregaram disso a partir de então. Ele consertava desde telefones a carros e lava-louças, não sem uma dose de decepção, porque ele não esquecia da artilharia.
Blake era carismático, em algum nível, e fez muitas amizades no quartel, tinha um humor negro que agradava aos colegas, adorava e era um dos mais animados nas festas — para não dizer arruaceiro. Por outro lado, ele era extremamente focado, na maior parte do tempo quieto e sabia quando se calar. Era inteligente o suficiente para segurar sua insolência, mas além disso ele respeitava seus superiores, Blake aprendia com eles. Dessa forma, permaneceu por mais dois anos, terminando seu serviço como mecânico do exército.
Quando Blake foi dispensado de seus serviços não sabia o que faria em seguida. Nesse meio tempo seus pais haviam se separado, a mãe estava com outro cara na cidade vizinha e o pai vivia de bicos e álcool. Blake recebeu e fez poucas ligações e visitas enquanto esteve no exército, na verdade ele se esforçava para manter distância e ficou aliviado quando sua mãe ligou para avisar da mudança. Ele estava cansado daquele inferno em casa, do clima de desconforto mútuo. Era melhor assim. Voltou para casa do pai apenas porque não tinha para onde ir, e permaneceu porque havia se fascinado por motocicletas concertando as do exército e precisava poupar para comprar a sua própria.  
Muitas coisas haviam mudado em seu bairro em tão pouco tempo. Haviam lojas e casas novas, gatinhas novas e os seus amigos também haviam mudado. Um deles havia morrido, outro estava preso, um estava fazendo faculdade e outros dois —  Orlando e Rafael — estavam na mesma. Blake descobriu que esses andavam pelo centro e os procurou.
No exército, Blake havia aprendido sobre lealdade, honra e eficiência, mas sua personalidade e caráter já estavam formados. Ele não era produto de uma família desgraçada nem do governo, Blake estava aberto apenas ao que lhe convinha e agradava. Assim, ele voltou aos velhos modos. Juntou-se aos amigos novamente e voltou a roubar, e eles evoluíram para assalto e tráfico.
Blake foi calculista, primeiro reconheceu o mundo do lado de fora e observou o sistema, mas logo iniciou uma fase desenfreada. Ele estava faminto e urgente, a coisa subiu a sua cabeça e encheu seus olhos. Ele dormia de dia, roubava, traficava e se drogava à noite. As brigas eram rotina, nas festas regadas a drogas sexo e Rock os jovens descarregavam suas energias e raiva. Em uma delas, Blake cometeu seu primeiro assassinato.
As desavenças ocorriam por diversos motivos, quase sempre banais. Todos estavam sempre muito loucos, mas isso não era desculpa para ninguém. Havia competição em tudo, disputa por poder, por parceiro sexual, território, negócios e dinheiro.
Blake estava com sua garota recostado em um carro, os amigos por perto. A festa estava bombando, a atmosfera estava literalmente pulsando, quando o dono do carro surgiu apontando o dedo para Blake, gritando, xingando e ofendendo a garota. Blake não pensou uma vez, não fez uma pergunta, ele partiu pra cima feito um animal e quando se afastou o cara estava morto.
Em um átimo, ele pegou a garota e saiu do local, não porque tinha medo, mas porque era o que se fazia. Quem viu o que aconteceu não manifestou opinião nem reação, em brigas de subúrbio ninguém vê nada e ninguém sabe nada. Se o cara morreu foi porque procurou, as coisas funcionavam assim. Ali eles viviam sob determinados códigos, era preciso respeitar o território alheio, negócios eram permitidos desde que não atrapalhasse os que comandavam a área. O que acontecia nas margens não era da conta de ninguém. Fosse pela percepção da realidade alterada pelas drogas ou pelos códigos, o fato é que não houve espaço para remorsos no coração de Blake.
Em seguida, ele se ocupou em roubar a moto de um doutor que morava do lado de sua mãe. Planejou e executou, mas não ficou com ela por muito tempo, apenas o suficiente para brincar um pouco. Ele era fascinado por motocicletas e pretendia obter uma nova e potente, porém, não poderia ser roubada porque não queria que fosse apreendida. Então, ele vendeu a do doutor para um desmanche, cometeu assaltos e furtos para conseguir mais dinheiro e comprou uma FX 1200 Super Glide 1974 azul e preta.
Orlando e Rafael também cobiçavam moto e deram seu jeito de conseguir as deles. O trio conheceu um gosto diferente de liberdade e ampliaram seu território de diversão. Não era exatamente um clube, era apenas um grupo de amigos que andavam com suas motos por aí curtindo, sem responsabilidades e consideração com regras. Uns vagabundos que se resumiam à festas, drogas, garotas, corridas e que ainda moravam com os pais.
Essas coisas aconteceram em um período de um ano e meio. Aos 23 anos, Blake estava em uma festa quando a polícia bateu e o apreendeu com arma e droga. Ele e mais meia dúzia, incluindo Orlando, seu amigo mais leal, foram presos. Blake foi indiciado por porte ilegal de arma e tráfico. Cumpriu um ano no presídio estadual e saiu em condicional graças ao advogado que a mãe e o padrasto pagaram.
A Justiça se encarregou de traçar novos rumos para Blake. Como exigência da condicional, ele mudou de cidade, “ para evitar que ele - o líder da gangue - voltasse ao rol de negociações”. Blake arranjou um emprego como estoquista em um mercado através da Assistência Social, recuperou  a moto apreendida pela polícia e alugou um quarto. E obviamente, retomou a vida de festas, rachas, arruaça, drogas, rock, violência, sexo, viagens de moto e jogatina, apenas mais cauteloso dessa vez.


Presente


A casa tinha a fachada de cor clara, janelas e portas de madeira, não era grande, mas espaçosa para um solteiro. A decoração era em tons claros também e havia pôsteres e quadros de bandas de rock e marcas de cerveja e vodca nas paredes. Estava tudo limpo porque ela estivera ali no dia anterior, procurando por ele.
Susana era esbelta e elegante, tinha o cabelo castanho claro ondulado, longo até o meio das costas. Seus traços eram bonitos e estavam distorcidos em tristeza e determinação. Ela viu satisfeita a moto de Blake na entrada, confirmando que de fato ele havia chegado, Fernando se veria com ela.
Cuidando para não fazer barulho, Susana usou a sua cópia da chave e entrou, varreu os cômodos, chegado rapidamente à conclusão de que Blake estava dormindo no quarto. Ela o observou deitado na cama, com a roupa no corpo e botas nos pés, devia estar exausto. Ela suspirou e foi para a cozinha.
Horas mais tarde, às 13hrs, Blake acordou e sentiu o cheiro de comida na casa, ele sabia que era ela. Susana estava ao telefone com a amiga quando ele apareceu no vão da porta  da cozinha. O coração de Susana gelou, uma corrente de emoção que cortou seu coração e despencou nos pés.
Blake a encara.
Ele veste apenas um short preto largo, tem uma toalha úmida de banho no ombro e está descalço. É alto, 1.86, de musculatura definida e riga, corpo magro e ombros largos, tem a cintura fina com a entrada da virilha marcada — uma perdição. Sua pele se mantém  intensamente bronzeada, marcada em várias partes do corpo por cicatrizes e tatuagens. A que mais chama atenção é o patch do motoclube que toma todo o seu braço direito. Um esqueleto rico em detalhes e realismo em tons escuros e esfumados com postura ameaçadora, de punhos cerrados, sorriso desvairado e capacete de motociclista no topo do crânio.
Atualmente Blake usa o cabelo em corte baixo a máquina, deixando à mostra as linhas do couro cabeludo que emolduram seu rosto, entradas quadradas na testa. Sua compleição está rígida agora por causa de Susana, mas é quase sempre séria. Seus olhos escuros são penetrantes, o maxilar marcado lhe dá um ar altivo, no entanto, não é algo simplesmente físico, sua imagem e postura são uma representação perfeita de seu interior.
Susana para de falar ao telefone e o encara de volta. — Depois eu te ligo… depois nos falamos. E desliga. Ela se vira de frente para ele e o encara.
— Fernando me disse que você só chegaria na quinta.
—  E o que você está fazendo aqui hoje?
Susana sente uma dor no peito difícil de disfarçar, ela engole o choro. — Eu estava saindo do mercado quando te vi passar. Onde esteve? Você ficou muito tempo fora…
— Não é da sua conta. Negócios. —  A voz dele é grave e dura, embora quase jovial. Ele tem trinta agora.
—  Você me deixou sozinha aqui, Blake, você simplesmente sumiu sem falar nada, eu fiquei te esperando… —  Susana estava linda em seu vestido de fundo branco e estampa floral lilás, curto nas coxas grossas e marcando os seios, mas igualmente vulnerável e triste.
— Você está cansada de saber como as coisas são, e eu estou cansado de você choramingando. O que você quer? Nada vai mudar. —  Blake deu alguns passo em direção à ela, uma ereção se enrijecendo dentro do short largo.
Susana varre as feições de Blake com olhar apaixonado, se sente uma desgraçada por amá-lo tanto.  Ela sente o corpo perder as forças e se apoia no balcão da pia, ela tenta disfarçar mas Blake já percebeu. Susana segue com os olhos a cicatriz que corta a sobrancelha esquerda dele e continua em um arranhão pálido até maçã de seu rosto, uma linha fina que faz seus olhos escuros parecerem mais negros, o olhar selvagem. Ela sorri o fazendo sorrir também, e ela sente o amor doer no peito outra vez, e sua vulva se encharca e lateja.
O sorriso de Blake é torto, pois quando seus lábios se esticam a cicatriz o repuxa para a esquerda — um corte que começa no canto esquerdo da boca e segue por uns seis centímetros na bochecha, faz uma curva de noventa graus e desce até o pescoço por mais cinco centímetros. A costura dos pontos deixou marcas e ao longo da gilvaz há pequenos pontos deixados pela linha. Mas apesar de torta, a boca de lábios finos é bonita, desenhada em um traço elegante, e a cicatriz não tirou a beleza de seu sorriso branco e amplo. Ao contrário, acrescentou-lhe uma expressão intrigante, perversa e estranhamente agradável, combina com sua personalidade. Seu rosto causa um misto de admiração, atração e medo, Blake é tão bonito e atraente quanto assustador.
Ele sorri para Susana — por que você complica as coisas, Su? Eu não quero um filho, não vou mais repetir. — Passa os dedos pelo cabelo dela, imediatamente sério outra vez, as sobrancelhas e olhos negros tensos.
Susana pressente os braços dele ao redor dela, as mãos ásperas na sua pele, o gosto da boca dele, anseia pelo beijo ao mesmo tempo em que seu coração recebe outra pancada no já familiar hematoma. Muito amaldiçoada…
— Eu sei… Mas Blake… —  Ela sabe que é inútil, então se cala, se afasta puxando ar para os pulmões e segura com força na maçaneta da porta do armário. Se volta para Blake e o encara de braços cruzados, inúmeras palavras escorrendo mudas em um suspiro raivoso e magoado. Ela se sente desprezada, rejeitada, não entende porquê ele não quer ter um filho com ela, já estão juntos há dois anos. Viveram um deles juntos ali naquela casa, até ela sugerir que tivessem um bebê pela segunda vez e Blake terminasse com ela. Eles tinham voltado há alguns meses, mas ela já não mora com ele, e teme não conseguir reestabilizar o relacionamento.
— Você tem outra?
— Não. Eu tô morrendo de fome… —  ele foi para o fogão e serviu um prato farto para si. Susana lhe deu as costas e foi sentar na varanda sozinha, Blake ligou a televisão na sala e comeu tranquilamente.
Ele assistiu ao noticiário sem prestar atenção, até começar uma notícia sobre a prisão de uma quadrilha de desvio de carga na fronteira. A polícia havia reforçado o monitoramento e conseguido apreender metade da carga e prender quatro homens durante a madrugada. Puta merda. Blake levantou, deixou o prato na pia da cozinha, escovou os dentes e foi para o quarto se vestir. Catou as chaves da moto, o celular e acendeu um cigarro indo em direção à varanda.
Susana ainda estava lá sentada, de pernas cruzadas e olhos vermelhos olhando a rua ao longe. Blake recostou no umbral da porta e a observou, Susana demorou para perceber sua presença e por fim virou o rosto. Ele estava todo de preto, botas, calça, camisa e colete de couro do moto clube com o patch de caveira insana.
— Tchau. —  Ela disse.
— Vai me deixar ir embora assim? —  Ele deu um trago no cigarro e sorriu expelindo fumaça.
Susana se levantou e se aproximou dele. —  Quando você volta? — Estendeu os braços e acariciou os ombros dele por cima do couro.
— Não vou muito longe. — Blake colocou a mão livre no quadril dela, descendo para a bunda, apertando a pélvis dela contra a sua ereção. Susana o beijou doce e voluptuosamente. — Tem tempo? — Perguntou.
— Claro, meu amor. —  Blake a levou para a cama. — Se a gente transar e você engravidar, pode me esquecer, tá ouvindo?
Susana não respondeu. Não adiantava continuar insistindo, mas o que mais ela queria afinal? Bastava ele, e com Blake ela já estava condenada o suficiente. Depois do sexo eles dividiram um cigarro e então Blake se vestiu e foi para o QG do clube, Susana continuou deitada na cama ouvido o barulho da Harley sumir ao longe.

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