Capítulo 5
5
Há muitos quilômetros dali, um vulto preto passa por detrás de um Fiat estacionado em frente à casa do prefeito. A noite é breu, o vulto confere a hora no mostrador digital no relógio de pulso. Os números vermelho-fluorescentes marcam um 1h07 am. Tá com insônia senhor prefeito? Ou ainda tá comendo sua coroa? O vulto olha para a única janela acesa na casa de dois andares, depois para os dois lados da estrada que se estende sumindo de vista na escuridão.
As casas da vizinhança estão adormecidas, tudo calado. Os ventos do Outono sopram gelados entre as árvores. Noite linda, aprova o vulto olhando a escuridão silenciosa com gosto.
Meia hora se passa, a luz da janela apaga e os dentes brancos da figura escura são expostos em um sorriso malicioso. Está cansada de esperar, mas é cautelosa, vigia a casa por mais meia hora, nenhum movimento. Leva uma mão enluvada ao bolso, pega o canivete, na outra a arma em punho.
Vamos lá! A figura sente a excitação que a toma em situações como essa. Será rápida e objetiva, como sempre. A casa colonial não apresenta grandes esquemas de segurança, não há nenhum desafio, e isso é chato, mas a prática da surdina nunca perde a graça. Não há uma fechadura que não abra, um lugar que não entre, um nó que não desfaça.
Sorrateiramente, cruza a distância entre o carro do outro lado da rua e o quintal, esquiva-se no portão, pula o muro, baque surdo no concreto, desliza pela parede até a porta dos fundos.
Saca uma lanterna pequena do bolso, acende e prende entre os dentes, com dois clipes de papel destranca a fechadura e entra. O vulto olha em volta, para além da escuridão da cozinha e fecha a porta atrás de si, a casa está em absoluto silêncio, um breu. Estudara a planta em dias de observação, sabe qual direção seguir. Desliza como um fantasma, desviando dos móveis e panelas, atravessa a cozinha, a sala, vira à direita, uma porta grossa de madeira. Destrancada. Muito fácil.
A sala é entulhada de móveis, mesas, poltronas, estantes, as paredes tomadas por prateleiras. Há muitas gavetas. As coisas importantes sempre ficam na escrivaninha, em uma das gavetas trancadas. O vulto para na entrada e olha ao redor, analisa cada móvel, com a luz precária de sua lanterna vê as outras opções caso o que procura não esteja no lugar óbvio.
Abre as gavetas da escrivaninha, vasculha as três primeiras: nada. Sua mão trava na quarta gaveta: trancada. Não tem erro, aí está: processo ALK04. Pega a pasta de papel pardo, abre e confere o conteúdo, guarda na cintura da calça, fecha as gavetas.
A localização do escritório é ótima para ladrões, no canto da casa, janela grande que dá na rua de trás, da qual as lâmpadas dos postes o vulto quebrara. Vira-se, destranca e pula a janela. Pousa como um gato, um criminoso sorrateiro. Entra e sai sem ser percebido.
Afasta-se da casa rapidamente, percorre alguns metros e desce o declive da rua, atravessa o mato em direção ao barranco onde estacionara sua moto. Leva a mão à cabeça e tira a touca ninja preta, os cabelos lhe caem nos olhos, enfia a touca no bolso traseiro da calça. Acende um cigarro.
A noite sempre fora a sua hora. O silêncio absoluto dos humanos lhe traz uma paz única. Na escuridão misteriosa e sedutora sente-se a vontade. O barulho das pedras sob suas botas é constante, passos regulares e seguros.
Imagina para que servirá essa pasta, absolvição de algum crime, incriminação, fraude? Dá de ombros, pouco importa. Seja o que for o que importa é a grana, um roubo na casa do prefeito deve ser para algo significante, o que encarece o serviço.
Aproxima-se de sua FX 1200 Super Glide preta de 1975, seus olhos se estreitam um pouco. Ama sua moto, customizada, agressiva, quanto mais velha melhor. Prende o cigarro entre os lábios, enfia a bota esquerda no pedal, passa a perna direita por cima da moto e se acomoda no assento de couro. Antes de virar o guidão e recolher o descanso vê seu reflexo pelo retrovisor, dá um sorrisinho, o cigarro pendurado nos lábios, a mão direita gira no acelerador e Blake dá a partida cortando as trevas da madrugada.
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