Capítulo 4




4

Estava fazendo o que tinha que fazer, era como sentia. Recostou no banco razoavelmente confortável, com a cabeça reclinada no encosto, o céu nublado correndo por seus olhos. LuAnn não pensava em nada, em sua mente havia apenas o eco do suspiro rascante, "finalmente", "finalmente", uma nota grave e constante como as batidas de seu coração. Ela relaxou o corpo e abstraiu-se em uma atmosfera distante, embaçada, o trem começou a andar e ela observou as ruas com satisfação.

LuAnn desejava apenas que o trem fosse em frente sem parar, precisava que a viagem fosse longa, para bem longe. Ela precisava deixar aquela vida para trás. Corre piloto, corre, fura essa rua e não para, vai, vai. Sua pressa era latente, um corte latejante, inundando o chão do trem de sangue. O ar vespertino cheirava a frio e ela queria sentir o vento no rosto, frio e cru daquele jeito, forte com a velocidade de seu avanço para algum lugar. O céu ficou roxo antes da noite cair, LuAnn desceu no terminal, virou em qualquer plataforma e pegou outro trem sem parar para ver o destino.

Acabou em uma cidade inusitada, no estado vizinho. Era dia outra vez e LuAnn despertou do sono com o alvoroço dos outros passageiros desembarcando. Ela esfregou os olhos, levantou, jogou a mochila nas costas e desceu. Avistou o relógio de uma torre ao lado da bilheteria, eram 17h40. O clima estava fresco quase frio, LuAnn enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta e andou pela plataforma.

  A estação de trem era rodeada por gramado e o verde continuava calçada à frente. As pessoas vestiam roupas simples, de tons escuros e sóbrios, vinho, marrom, branco, cinza. LuAnn olhou ao redor curiosa, levemente espantada, a simplicidade era evidente. Não havia prédios, apenas casas pequenas, de aspecto camponês, fachadas cinzentas e telhados de madeira pintados de verde ou marrom. Não tinha noção de quanto havia viajado, ficou surpresa que há pouco mais de dez horas de onde morava havia um lugar tão remoto e pacato como esse. LuAnn pensou no lugar que vivera até então, comparando as ruas tão iluminadas de sua cidade natal e os inúmeros prédios acavalados com os esparsos campos entre aquelas casas, e então uma carroça passou por ela causando-lhe uma risada. Uma senhora trajando vestido azul escuro e uma touca de pano segurava as rédeas, ao seu lado um garotinho de chapéu e suspensórios. LuAnn quase a deixou passar antes de gritar e acenar para pedir informações, ela estava surpresa com o cenário tão único e quase arrebatador. Perguntou por um lugar onde pudesse comer e passar a noite, a mulher disse que havia um hotel adiante e lhe ofereceu carona. LuAnn subiu na carroça sentindo a estranheza da nova experiência e se divertindo, em seus lábios um sorriso muito discreto e nos olhos um brilho curioso.

A noite caiu muito rápido, durante os poucos minutos de percurso, a temperatura diminuiu e LuAnn fechou a jaqueta no peito.

— É aqui.  — A senhora falou indicando um vagão na beira da estrada. LuAnn ergueu as sobrancelhas. A mulher apontou e explicou. — Este é o hotel, esse vagão vermelho é a recepção, aquele outro azul o restaurante e os outros são, cada um, um quarto.

LuAnn correu os olhos pelos vagões e viu sombras se moverem contra as luzes amareladas das janelas. Agradeceu e desceu da carroça. Surpresa, entrou no vagão vermelho e o calor aconchegante a envolveu, o interior também era vermelho e iluminado por castiçais com muitas velas. Atrás do balcão, um homem de pele avermelhada e cabelos louros ralos tinha a cabeça baixa em um livro.

Não havia eletricidade, eletrodomésticos nem telefone, LuAnn tomou banho com água aquecida no fogo, comeu legumes, carne e cereais no restaurante. Os atendentes a trataram de maneira muito esquisita, eles foram extremamente educados e simples. LuAnn comeu devagar, invadida pela tranquilidade quase sonolenta do lugar, reparou nas janelas do vagão decoradas com cortinas florais em tom claro, nas luminárias redondas ao lado de cada mesa. Para completar o cenário, a uma mesa dela, duas crianças se divertiam muito sorridentes e satisfeitas com brinquedos artesanais simples, formas de animais feitas de pano.

Ao deitar-se LuAnn ficou olhando pela janela de seu vagão por muito tempo, o espírito sossegado, pensando sobre o que vira durante a viagem e sua chegada à cidade. Havia curiosidade e excitação por conhecer coisas novas, mas LuAnn experimentava uma tranquilidade incomum. Fumou debaixo das cobertas e perdeu-se em seu silêncio absoluto.

Às dez da manhã seguinte pagou e partiu do trem-hotel. Com as mãos nos bolsos da jaqueta e o cigarro pendurado na boca, caminhou pela cidade. Passou por   fazendas, viu os habitantes trabalhando a terra, crianças correndo felizes, algo realmente curioso e intrigante de se ver. LuAnn pensou na corrida desenfreada das pessoas que compunham seu mundo, as pessoas naquela cidade viviam pacatas como pessoas de outro século. LuAnn caminhou por horas, parou e observou, fumando seus cigarros tranquilamente. Não puxou conversa com ninguém, atravessou a cidade e ao ver uma parada de ônibus embarcou sem ver para onde.


× × ×



— Corre, filho da puta! Corre! Corre, seu filho da puta!!!
Os passos do cara ressoavam na rua alaranjada pela lâmpada do poste, pernas compridas, capuz do moletom na cabeça. LuAnn corria atrás dele com canivete em uma mão e a mochila na outra. FILHO DA PUTA!
Ela dormia no ponto de ônibus quando ele tentou roubá-la. Era madrugada, ruas desertas, cachorros latindo como fantasmas ao longe, o ar frio. Tap-tap-tap-tap-tap-tap-tap-tap-tap. Ele fugia desenfreado e ela perseguia desembestada. Tap-tap-tap-tap-tap-tap-tap-tap-tap.  Aur-aur! Aur-aur-aur! Os cachorros se agitaram.
Corre! Corre, seu filho da puta!!! Se eu te alcançar vou atravessar minha faca pelo teu cu! — Tap-tap-tap-tap-tap. Aur-aur-aur! Tap-tap-tap-tap.  Aur-aur! E ele correu, correu rua abaixo, virou uma esquina e sumiu de vista ao pular um muro.
LuAnn parou, ofegante, maxilar trincado. Filho da puta! Ela estava com muita raiva, acordou no susto com um desgraçado mexendo nela, que ultraje! Fechou as mãos com força, queria praticar um pouco de violência agora, mas não conseguiu pegar o cara, que decepção. Ela voltou então para o banco do ponto de ônibus, sentou e conferiu seus pertences, não deu falta de nada. Olhou a rua fora a fora, não havia movimento algum. Decidiu sair dali, caminhou pela rua arrastando os pés, só pra ter o que fazer. Não sabia onde estava, nunca ouvira falar daquele bairro. Queria ir para o norte, mas pegara o maldito ônibus errado,ele deu voltas e acabou em lugar nenhum, ela desceu em qualquer ponto e ali estava. Bairro horroroso, sujo, esquecido pelo mundo, não havia lugar para hospedar, não achou porcaria nenhuma, pegou chuva e dormiu na rua. As casas ao redor eram pequenas e pobres, os muros todos pichados e o fedor subia dos bueiros.
A cabeça de LuAnn estava vazia, sentou em outro banco, encarou a rua, fumou um baseado, adormeceu. Acordou ao alvorecer, se espreguiçou e observou o céu rosa pálido, os cachorros ainda latiam, o ar estava fresco. Fumou o restante do baseado enquanto o sol começou a subir no horizonte, e lá veio o ônibus, lerdo e trêmulo como uma miragem. LuAnn embarcou e sentou nos fundos, à janela, olhos no sol.
— Aí, esse ônibus vai pra onde? — Virou o rosto, falando com uma pessoa no banco ao lado, suas pálpebras estavam pesadas, a encarou mais que o necessário, mas olhava sem ver.
            — Vai pra Catedral.
            — Onde é a Catedral?
            — No centro, haha.
Uma fotografia fumacenta desprendida da realidade em meio a oceanidade profunda emergiu e LuAnn viu o rosto de quem falava. A luz do sol incidia no cabelo cor de aveia, vários fios esvoaçando com o vento que entrava pela janela do ônibus. Ele roçada nos ombros nus, uma massa ondulada de cabelo embebido de sol. Os lábios alaranjados, os olhos amendoados, a camiseta marrom, tudo suavemente morno amanteigado.
LuAnn a encarou —  é o último ponto? A garota disse que sim. LuAnn virou para a janela, observou a paisagem erma derreter, piscando os olhos lentamente, flashes letárgicos.
O ônibus catou pessoas em vários pontos e então começou a ir sem parar, por um tempo sem fim, para LuAnn que estava chapada.
— Você perdeu o seu ponto — LuAnn virou o rosto para a garota.  — Acabamos de passar pela Catedral.
— Eu não ia descer lá. O jeito dela todo jogado no banco, sonolenta, voltou o rosto para a janela.
Vários quilômetros e dois pontos depois a costa oceânica surgiu nos lineares da estrada. O ônibus seguiu rodeado por árvores e pedreiras, umas poucas casas e comércios avulsos pelo caminho. LuAnn pegou a mochila e desceu na parada seguinte, meia dúzia de pessoas fez o mesmo.  A rua acabou em um retorno, o ônibus virou e se foi. Havia um caminho asfaltado em declínio até uma pequena trilha que levava à praia, as ondas batiam barulhentas, LuAnn sentiu logo o cheiro do mar e o ar frio e úmido grudar na pele.

Foi em direção à areia.
O murmúrio do mar preenchendo os ouvidos.
O ar fresco envolvendo a pele.
O rosado embaçado do horizonte enchendo os olhos.
Andando devagar pela areia, grãos entrando nos tênis.
Ela estava sozinha. Procurava por algo, e não sabia o que era. Estava andando na vida como andava nessa praia, colocando um pé na frente do outro, indo para onde dava vontade, sem saber o que ia encontrar e com uma curiosidade despreocupada de quem é tão jovem como ela era.
Seu coração tinha fome.

Ela perambulou pela praia até que avistou a garota do ônibus metros à frente, sentada na areia sozinha. Foi até ela. Quando a garota a viu se aproximar sorriu, os olhos cerrados.
— Ooooi! — Ela disse.
LuAnn sorriu.
— Você ia vir pra cá mesmo ou tá perdida?
— Pareço perdida? — LuAnn olhou para a garota de um jeito que a fez ficar em dúvida sobre o tom da pergunta. Ela sustentou o olhar de LuAnn e sorriu de lado, dizendo que não.
O nome da garota era Lana, tão doce e selvagem ao mesmo tempo. Elas conversaram dividindo um baseado, depois uns amigos de Lana chegaram, um casal, e eles passaram o dia subindo nas pedras e tirando fotos, ouvindo música, fumando e bebendo, pulando de precipícios, quase morrendo e dando gargalhadas na cara do risco. Escolheram a parte mais retirada para acampar, a praia enorme , o mar e o céu estavam todos para eles. A vida estava toda para eles.
A juventude genuína esquenta as ondas, a leveza de um espírito alto que irradia no sangue, na mente. Ondulando no mar azul cinzento, pele na pele, Lana cola os quadris nos de LuAnn, as mãos tocam as costas, as nádegas, os seios se comprimem e as bocas se comem. Ondulando no mar, chapadas, embriagadas de vida, abrem os olhos enquanto beijam, tiram o cabelo do rosto da outra, puxam e mordem, coração acelerado, respiração ofegante.
Uma fumaça de gotículas d’água se ergueu sobre a areia e o mar, o céu ficou rosa e o mar ficou violeta escuro. Na areia, LuAnn encarou a neblina rosada. Não tinha ideia de onde estava, e não importava. Era extremamente libertador estar desprendida de qualquer referência. Ela estava muito alta, e uma explosão aconteceu dentro do seu peito. Uma veia estourou inundando-a com a sensação de ampla liberdade, extensa como o oceano. Um coração tão profundo e obscuro quanto.

LuAnn

Vou pra casa da garota. Ela mora longe da praia, fico por alguns dias, ela disse que eu sou uma amiga da escola. Passo alguns dias na casa de uns amigos dela também, pulando de casa em casa como galinha no poleiro. Eles ainda estudam, mas passamos o dia inteiro à toa na rua.  Quando vão pra escola fogem antes da última aula.
Os dias estão ensolarados e nós andamos pelas calçadas em bando, falamos um monte de besteiras e fumamos filtro vermelho. Pegamos carona em um ônibus e vamos até o shopping praticar uns furtos.  Todos são muito bons nisso, praticam todos os dias, piores que eu. Passamos a mão em qualquer troço pequeno que dê pra enfiar nas calças. Barras de chocolates, camisinha, cerveja, bijuterias, bonés, chaveiros, óleo de cabelo e até lenço de papel. A diversão não tá no objeto, tá em passar por cima da regra, meter a mão no que quiser e não ser pêgo. Caímos fora sem acionar o alarme, viramos a esquina e morremos de rir nos sentindo muito satisfeitos com nós mesmos. Eu começo a correr, chuto uma lata de refrigerante no caminho e continuo correndo livre e feliz. Isso aqui é só uma brincadeirinha idiota, boba, mas nada como uns furtos pra  passar o tempo. Os outros me acompanham na corrida, começamos a competir, corremos desembestados pela calçada esbarrando nos outros e sendo xingados pra caralho. Um dos amigos de Lana ganha, porque ele tem as pernas de uma girafa e eu esbarro num coroa e me atrapalho, se não eu ia chegar primeiro, claro.
Sinto os pontos na minha mão latejar, esse troço tá demorando pra fechar. Vamos em direção da casa de Lana, passamos o resto do dia comendo e jogando video-game. Minha mão dói, Lana fala com a mãe dela e ela passa desinfetante e uma pomada pra ajudar a cicatrizar e evitar infecção. Recebo um esporro, escuto quieta e concordo, preciso dos remédios dela. Agradeço e volto pra sala, acendo um cigarro, apaga isso, tá maluca, Lana me dá um tapa, e dou outro nela e apago o cigarro irritada. Levanto e saio da casa, não falo nada, vou andando pela rua até encontrar um grupo de caras na praça da rua principal, peço isqueiro e me junto a eles pra fumar. A noite tá caindo, o céu tá intenso, melancólico e tranquilo.
Quando volto pra casa de Lana e os outros já foram embora, a desculpa pra eu ficar dormindo aqui é que meus pais estão viajando, coisa mais batida, mas tá funcionando.
— O que você vai dizer a eles quando eu nunca mais aparecer aqui?
Lana faz pouco — sei lá, que você se mudou.
Ela tira o sutiã e vai pro banheiro, eu tô sentada na cama dela, fumando. Vejo meu reflexo no espelho do armário, tô com a pele mais bronzeada, o cabelo jogado pro lado de qualquer jeito como sempre, mas sem maquiagem. Jogo um beijo pro espelho e dou um trago, pensando em sexo, em macarrão com queijo e que tô a fim de dançar. Ligo o som portátil no tapete perto da cama e dou play em Queens of Noise da The Runaways que roubei ontem. No fundo consigo ouvir o pai de Lana reclamando de mim, ele me acha estranha. Eu rio comigo mesma, minha performance não o convenceu muito. No jantar, único momento em que todos se reúnem, eu não falo muito, quase nada, depois vou pro quarto com Lana. Eu não tô nem aí.

Vamos à uma festa, o local é fechado, segundo andar de um prédio velho de quatro andares. Não tenho ideia do que é isso aqui, no primeiro andar também tem pista de dança, bar e a bilheteria com uma porrada de seguranças. As caixas de som tão estourando, a música tá bem clara e a batida forte, já chego excitada. Compro uma cerveja e me jogo na pista, a música é pop, eu já ouvi por aí. Lana e a amiga dela cantam alto e balançam a cabeça. Bebemos e dançamos uma música atrás da outra. O pop vira R&B e depois rap, surge uma fumaça densa de maconha e cigarro no ar, as pessoas rebolam até o chão e se esfregam, se pegam e enfiam as mãos nas calças umas das outras. Lana e eu dançamos juntas por um tempo mas eu não fico agarrada com ninguém, sumo e fico com um cara em um canto. As ondas sonoras são intensas, reverberando pelos ossos, euforia. Puxo o cara pelo braço, ele pergunta qual é o meu nome, é tudo a mesma coisa, eu digo.
Saímos do local da festa, os corredores tão em luz azul neon, tem gente se pegando e conversando pra todo lado, eu não sei pra onde ir. O cara me indica o elevador e nós subimos. O elevador pára no terceiro andar, aqui a luz é vermelha. O corredor tem várias portas fechadas, o cara abre uma delas e damos de cara com uma suruba, abrimos várias outras com cenas de sexo até achar um desocupada, que lugar da porra!
Fudemos igual os animais que somos. Eu quase morro com a força que esse cara me fode, grito de prazer com cada investida doida dele. Ele é alto e todo grande e tem uma resistência impressionante, perco a noção de tempo, parece um touro doido quando não aguenta se segurar mais e goza, bufando. Eu sorrio diante de tanta selvageria. Isso parece o provocar e ele me puxa pelo cabelo.
— Vai se foder, babaca! — Dou um soco forte no braço dele. Por um instante ele fica sem reação e para a mão no ar pra revidar. Eu o encaro e sorrio desafiadora, o filho da puta é enorme, e isso me motiva, mantenho o olhar venenoso. Eu adoro sexo selvagem, mas não dei permissão a ele pra fazer isso e tô mais zoando com a cara dele mesmo. Ele sorri e faz um gesto negativo com a cabeça tirando a camisinha, recosta nos travesseiros e apoia a cabeça nas mãos. Eu sustento o olhar mais um pouco e cato minha calça no chão pra pegar um cigarro, ele pede um. Fumamos e fodemos de novo, eu seguro as rédeas do cavalo dessa vez.
Volto pra festa, paro no bar e compro duas cervejas. Fico sentada bebendo, observando a pista de dança, tá todo mundo embolado e multicores. Um cara dança olhando pra mim querendo chegar, eu viro a cara, termino a cerveja e abro a outra. No meio da surubada dançante vejo Lana se agarrando com um cara, e ela vê que eu a vejo. Ela abaixa a cabeça, puxa o cara e os dois somem entre os outros. Eu continuo bebendo minha cerveja e quando termino volto a dançar.
Tá tocando rock agora, e eu me acabo na pista. Os corpos tão muito próximos, todo mundo na sintonia intensa, loucos pela música estridente e pesada. Sinto o chão quando volto dos meus pulos, meu corpo girar, levada e envolvida por uma força, uma sensação muito gostosa, eufórica e perdida. O som da guitarra atravessa meu crânio, muito bom. De repente gritos soam e se multiplicam, um círculo se abre  o máximo que pode pelo número de pessoas ali dentro.
Há sangue na pista de dança.
O Cavalo tá ali destacado no meio com a mão no abdômen, o sangue é dele.
Um minuto de silêncio.
E a música volta a tocar e a gente volta a dançar. Me afasto dali rebolando, beijo uma garota no caminho e paro do outro lado da casa. Acendo um cigarro e continuo dançando no canto, começa Welcome to the Jungle do Guns N Roses, adoro essa música.
Ainda há uma agitação no meio da pista, mas a música não para. Vejo o Cavalo ser arrastado pra porta dos fundos, eu giro e giro tragando o cigarro e cantando. Eu vejo Lana de novo com a amiga dela e elas vem até mim. Viu o que aconteceu? Elas perguntam. Que merda, eu digo. Vem cá, puxo Lana, ela me olha nos olhos com medo, ela gosta de mim, vejo. Seguro no rosto dela e a beijo lentamente, paro, encaro, beijo. A música continua, meu irmão, e eu encosto ela na parede.
A noite segue normalmente. Saímos de lá às quatro da manhã. Cambaleamos na madrugada, nos jogamos em uma calçada e ficamos conversando até amanhecer. Meus pais vão me matar, Lana ri, eu tinha que chegar antes deles acordarem. Relaxa que o ônibus tá vindo, digo olhando a mancha de sangue no bolso onde guardo meu canivete.

E lá vamos nós. Outra vez num ônibus ao amanhecer, eu olho pela janela sentindo o vento no rosto. Tô cansada, com sono e com fome. Espero que os pais de Lana ainda estejam dormindo pra eu comer o que quiser. Seguimos em silêncio. Quando chegamos ela pergunta se tá com cara de bêbada, eu rio da cara dela, e ela ri também.
— Deu sorte, eles tão dormindo.
— Não acredito que vou me safar dessa! — Lana sussura. Na mesma hora em que abrimos a geladeira ouvimos barulho vindo do segundo andar. — Puta merda! Corre!
Subimos pro quarto dela dando risadas abafadas e nos trancamos. Tomamos banho juntas, seguro os seios dela nas mãos, eles são grandes e macios, eu mordo com força e desço pra boceta dela. As pernas dela tremem e ela geme enquanto eu trabalho. Sinto a pele lisa deslizando na minha boca, tô muito excitada e fico cega de prazer. Quando me dou conta ela tá tendo convulsões e escorregando pela parede. Eu levanto com um sorriso malicioso, Lana me puxa e me beija com força. Continuamos na cama dela e depois dormimos.
Mais tarde acordamos com a mãe dela chamando a gente pra almoçar, eu como muito, e depois nós vamos andar na rua. Encontramos com os amigos dela e passamos a tarde no alto de um morro, olhando o bairro lá embaixo, a toa. A luz do sol incide no cabelo cor de aveia, vários fios esvoaçando com o vento lá do alto. Ele roça nos ombros nus, uma massa ondulada de cabelo embebido de sol. Nessa noite, eu pego os remédios no armário do banheiro, comida na geladeira, minha mochila e caio fora.

× × ×

Elas andavam como gladiadoras, passos firmes e pesados na direção do inimigo. LuAnn estava ali sentada há pouco mais que dez minutos, terminava um hambúrguer gorduroso cheio de bacon e cheddar. Com a boca cheia e dedos sujos, amassou o papel mantendo o olhar na movimentação tranquila à sua frente. Era final de tarde, o horizonte estava em um tom rosado e o céu azul cinzento.
— Qual é a sua, garota?
Os passos pararam à sua esquerda, LuAnn pegou o refrigerante com os dedos escorregadios e bebeu.
— Eu tô falando com você!  — A garota gritou. — Você é surda? É maluca? LuAnn podia sentir e ouvir a respiração dela. Ela tirou o canudo da boca, virou o rosto e deu um arroto longo e sonoro com cheiro de bacon.
— Sua filha da puta!! — A garota gritou raivosa.
LuAnn  pulou da mesa de praça onde estava sentada para o chão e andou em direção à rua antes que terminasse o xingamento. A outra ficou fora de si.
— Sai do meu caminho. Não tenho nada a ver com você. — Disse LuAnn por cima do ombro. Antes que ela terminasse a frase, sentiu um puxão extremamente forte no cabelo, seu passo foi interrompido, ela cambaleou para trás, a dor como centenas de agulhas no couro cabeludo se espalhou por toda a cabeça, ombros e olhos. A garota a trouxe para si e a derrubou ao chão. LuAnn caiu com um baque forte e as três garotas caíram em cima dela com chutes, socos, tapas, arranhões e puxões de cabelo.
LuAnn gritava de raiva e dor, em meio aos golpes ela via uma confusão de braços, dentes arreganhados e cabelo. Os golpes eram impiedosos, por todo o corpo e aumentaram em sequência e intensidade. Ela não enxergava nada agora, estava enjoada, sentia o corpo todo latejando e ardendo, e o sangue quente escorrendo.

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